O pavilhão do artesanato é o que mais visitantes atrai durante a Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira. O espaço é dinamizado pelos artesãos que são convidados pela organização a participar no evento que procura promover as tradições deste vasto território, as suas gentes e cultura.

Se perguntassem há três anos a João Miguel de Oliveira, 29 anos, se imaginava vir a ser artesão, a resposta seria negativa. Aliás, ainda hoje se perguntarmos a este jovem, natural de Lisboa, a residir em São Teotónio desde 2015, se quer ser artesão, a resposta é mais ambiciosa: “Quero ser artista plástico”, diz sem hesitar.

FACECO | Artesanato| © Helga Nobre

“Na escola via os meus colegas fazerem bonecos em pasta de papel, cuja estrutura é em arame. Um dia acordei e lembrei-me de fazer uns trabalhos em arame”, conta o autodidata que no processo, que já leva dois anos, já se magoou por diversas vezes.

 

As luvas e o alicate são os seus ‘companheiros de luta’ nesta guerra declarada ao arame que molda insistentemente com as mãos. São elas que dão forma aos ‘animais’ que o jardineiro de profissão esculpe “sem moldes”

FACECO | Artesanato| © Helga Nobre

E desde que começou, João já deu vida a formas humanas e a muitos animais. Gosta de reproduzir num arame cinzento as formas singelas dos pavões, cisnes ou das garças mas engane-se quem pensa que as esculturas maiores o assustam. Do seu zoo privado constam um golfinho, um burro e até mesmo um bode, a quem não falta a ‘barbicha’

 

João conhece o público que compra as suas peças de arte e sabe que ao estrangeiro “vende-se melhor as peças grandes”, enquanto que o português “tem preferência pelas de médio e pequeno porte”.

Quanto a ser artesão com aspiração a artista plástico, João diz que existe uma razão para manter o “título”.

 

No pavilhão do artesanato estão trinta artesãos a trabalhar ao vivo. Madeira, cestas, violas campaniças, barro, têxteis, vidro, de tudo um pouco se pode encontrar e é fácil passar algumas horas a observar a arte e sabedoria por detrás de cada rosto.

António Escaleira, pescador reformado, trabalha as raízes de urze, uma planta que cresce nos barrancos, serras e ombrias viradas a norte, na Azenha do Mar. É ele que as colhe, com a autorização dos proprietários, e lhes dá forma “enquanto estão verdes”. Janeiro é o mês recomendado mas António “apanha quando tem falta”.

FACECO | Artesanato| © Helga Nobre

Dedica horas a fio a moldar os seus talheres, miniaturas, porta-chaves, agulhas para a pesca, dentes para o cabelo em madeira de urze de vários tamanhos e com utilidades diferentes. Faz isto há mais de trinta anos e em exposição tem mais de 100 variedades de peças, diz enquanto molda uma colher de sopa.

Nas mãos “uma alegra” rasga a pele das pequenas tábuas de 2,5 cm. “Desgastar a madeira onde a gente não a quer”, explica ao dar forma à concha.

 

Começou a trabalhar com a urze quando os talheres fizeram “falta em casa”. Cresceu a ver os avós fabricarem pequenos utensílios e um dia pensou que “era capaz de fazer” o mesmo. As primeiras tentativas “não saíram muito bem” mas apesar dos defeitos e, volvidos trinta anos, ainda as consegue vender. “As pessoas gostam”, ri-se.

O trabalho de António tem uma particularidade: “Não há duas iguais, pode haver parecidas mas nunca iguais porque isso não consigo fazer”.

Este domingo, é o último dia para visitar a FACECO – Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira.

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